Sábado, Setembro 05, 2009

Meu nome não é Gal. E nem Gil

Por que é que sempre que estou esperando um telefonema, não um telefonema qualquer, mas aquele telefonema, que não sei se virá, o telefone sempre acaba tocando? Mas não, não me refiro à ligação que traz na tela do celular enfim o nome tão esperado (que não, não direi que é o da bola da vez), mas sim um número mesmo, e dos que nunca vi. Ao sentimento misto de animação, conquista e alívio, junto também a surpresa, “ele está ligando de outro número”. Tolinho (eu, e não o esperado interlocutor).

- Alô?..., atendo, a despeito dos eufóricos sentimentos citados acima, com desconfiada e prudente reticência na voz (ainda que com um sorrizinho ingênuo e esperançoso no olhar).

- Alô, Gil?

(O nome não importa, calhou de ser Gil da última vez, mas já me perguntaram por Luis, João, Beto...)

Silêncio.

- Vai...procurar...o Gil....no centro...do olho....do....SEU ..´!

Não, não respondi isso. Na verdade, eu disse simplesmente:

- VOCÊ LIGOU PARA A PESSOA ERRADA!

(Às vezes eu sou um fofo)

- Desc..., ia dizendo a pessoa do outro lado, em tom falsamente humilde para quem está ligando diretamente do quinto dos infernos. Mas eu não precisava terminar de ouvi-la, como sempre nessas infelizes ocasiões, já que a tecnologia ainda não chegou a um ponto que me possibilite morder a outra pessoa através do telefone, nem ao menos fulminá-la com o olhar até vê-la estrebuchando seca no chão, e eu não posso fazer nada mesmo.

Outro mistério telefônico: por que sempre que preciso encontrar meus amigos eles nunca atendem o telefone (tipo all by myself, “...I think off all the friends I’ve known, but when I dial the telephone, nobody’s home...”, mas, ora pipocas, na época em que essa música foi composta a única forma de se encontrar as pessoas era em casa, ainda não havia o celular!)?
Fui comer, então. Padaria e mina de ouro 24 horas Bela Biba, e no balcão, por duas razões: não pego fila e ainda escuto melhor a conversa dos outros.

"Aqui, meu querido!", diz o atendente entregando o pedaço de pizza a meu vizinho direito de balcão.
(“Meu querido"?, pensei. Você conhece ele? Nem conhece e já vai chamando de querido. Como as pessoas são levianas. Acham que as palavras saem impunes da boca. Semana passada me chamaram de “amor da minha vida”, e hoje eu não escuto nem um alô)

Em seguida, outro vizinho, o da esquerda, aponta para o atendente sua garrafa de vinho e diz: “amigo (as pessoas são tão íntimas, aqui!), garrafa vazia é triste, né?”.
(E o que você espera que ele diga? Que lhe dê as condolências?, pensei, enquanto tomava um gole do meu chá gelado da casa)

Dali a pouco, este mesmo vizinho olha ao redor, e exclama: “essa padaria é o maior barato!”. Por que terei eu tido a vaga impressão de ele ter dito isso após sua mirada 180º ter terminado sua trajetória em mim? Eu sou engraçado? “O maior barato”? Estou te divertindo? Garrafa vazia é triste.

Peço mais um pedaço de pizza. O atendente me entrega: “aqui, meu querido!”. Silêncio. “Moço, se eu fosse você não repetia isso, que eu posso me apaixonar e você vai ter que me fazer muito feliz em meio a muitos pedaços de pizza quatro queijos e chá gelado da casa diariamente”.

Não, é claro que não disse isso. Mas pensar nisso me fez sorrir, o que foi bom pra mim, especialmente na situação aflitiva em que me encontrava. É bom rir de mim mesmo. Ameniza. Às vezes eu sou o maior barato.

"Você viu Medos privados em lugares públicos?", perguntou o amigo do vizinho da esquerda para ele, agora ambos com a garrafa já cheia.

(Eu vi, respondi eu para mim mesmo, muito bom, Alain Resnais, divaguei, lembrando do filme, e também, com uma estranha espécie de constrangimento, de que seu título vinha perfeitamente a calhar)

“É maravilhoso, vi quatro vezes”, contou ele. Peraí, o filme é realmente excelente, mas não sei se o veria quatro vezes. O último filme que vi quatro vezes acho que foi O massacre da serra elétrica II. Olhei para o amigo de meu vizinho esquerdo. É, ele tinha cara mesmo de quem vê filmes franceses quatro vezes.

"O lance do filme é que todos os personagens tinham a resposta pra vida deles diante do nariz, mas não enxergavam". Silêncio. Em câmera lenta, pousei o talher no prato e, ainda mastigando, me virei novamente para ele, olhando-o desta vez com outros olhos. Quanta sensibilidade! Quase me enturmei com a dupla, “garrafa esvaziando é triste, né, gente?”, e já pedindo outra pro querido atendente, para tomarmos todos juntos e discutirmos as tais respostas.

Em vez disso, me levantei e saí da padaria. Rumo à locadora: “preciso rever este filme. Hoje. Quatro vezes se for preciso”.

Mas não cheguei a meu destino. No meio do caminho, o telefone tocou. E dessa vez não era pro Gil.

Foto: goooooogle

Segunda-feira, Agosto 31, 2009


Como nascem os lobisomens

Parte 1 – Liberté, égalité et fraternité

Deixemos o hipocrita...digo, politicamente correto de lado, e encaremos os fatos. Uma pessoa preta é preta e não dá para se fazer passar por branca (Michael Jackson, que Deus o tenha, foi um caso à parte, não conta). Os orientais são igualmente indisfarçáveis (e não, não direi que são literalmente indisfarçáveis, pois se colocarmos vários dentro de um ônibus não dá pra saber quem é quem, não cairei em uma piada....amarela...tão batida!).

Já um judeu, à exceção de um judeu ortodoxo, daqueles caricaturizados em piadas, não é tão explicitamente identificável. Com o(a)s amigo(a)s temático(a)s se dá o mesmo, porém igualmente com exceções, no caso a estereotipada bichinha da piada e as caminhoneiras. Assim como uma mulher de chamada vida fácil nem sempre tem cara de puta. E por aí vai.

Estando eu incluso em uma das categorias citadas acima, que não chamarei de minorias (mesmo porque dentre os orientais estão os chineses, e chinês não é minoria nem aqui nem na China), passo, contudo, por situações que não passaria se fosse preto ou oriental, por exemplo. Explico.

Certa vez, contei, ou melhor, tentei contar, uma piada de bichinha, fazendo a correspondente interpretação, a meu amigo Marcos Farto, e ele, provavelmente só pra me magoar, riu antes mesmo do final da piada - não tendo sido, portanto, a anedota o motivo de seu escárnio -, dizendo sem o menor tato que “não adianta, Pu, você não consegue fazer o papel da bichinha!”. Tal comentário me fez sentir pior que o Ricardo Macchi na época do cigano Igor.

Mágoas à parte, o fato é que, longe dos olhos de meus, digamos, semelhantes (porque uma coisa é fato: os iguais se reconhecem, tais como os cachorros. Neste caso, felizmente, não é necessário cheirar o rabo um do outro como posterior cumprimento), posso me fazer passar por alguém de qualquer orientação sexual, nacionalidade (talvez não por um japonês), partido político ou religião (inclusive por um judeu). Praticamente a Mística dos X-Men. E isso pode ser muito divertido.

Assim, já cansei de ouvir piadas de bichinhas em rodas sociais; comentários preconceituosos do tipo, ainda que com outras palavras mas com este sentido, que eu deveria ser exterminado da Terra (genteeem, se eu fosse negão ou tivesse olhos puxados essa gente uó nunca teria os, desculpe a expressão, culhões, de dizer isso assim na minha cara!); certa vez, inadvertidamente caí de pára-quedas na Paulista em plena Marcha por Jesus, “pisa! Pisa! Pisa na cabeça do inimigo!”, esbravejavam os...fiéis. Meu Deus, imagina se eu tivesse chegado lá rebolando e miando, meus degenerados miolos teriam sido espalhados por toda a calçada do Conjunto Nacional!

Mas, felizmente, há também a ala moderada, friendly, até. Em outra ocasião, comentando sobre o trânsito que haveria nas imediações durante a Parada Gay que ocorreria em alguns dias, um motorista de táxi, que pela minha fala percebera que eu era carioca (esta sim uma característica que não consigo disfarçar, menos, talvez, para minha amiga Fabiruta, que após meses de convívio, declarou certa vez que “odiava cariocas”, querendo se enfiar na terra quando eu perguntei fazendo ares de ofendido, “então você me odeia?”, “por quê?!”, “porque eu sou carioca!”, “ai, Pu!, Não acreditooo!!!”), e me tomando por um turista, me contou que naquela região havia sempre “muitos deles”, mas que eram “pacíficos”, que “não mexiam com a gente”, que eu poderia andar por ali “tranqüilamente, pois era seguro e sem violência”!

Mas o que eu continuo achando mais divertido mesmo é assistir a jogos de futebol em botecos e fazer coro com a galera na hora do gol: CHUPA!


Parte 2 – Silva e os gayzinhos

Silva é um contato profissional que me arruma uns trabalhos freelances de quando em vez. E toda vez que nos encontramos, Silva não esconde toda sua implicância com certo segmento da sociedade.

Na primeira vez em que conversamos, me contou que um desafeto seu só “andava com ‘gayzinho’”, fazendo uma espécie de careta e gesto de desprezo com a mão. Minutos depois, com o mesmo gestual, comentou que o assessor de imprensa de um conhecido nosso é “um gayzinho”. A esta altura, tive que desviar o olhar de Silva e olhar para meu cappuccino, digo, café (porque cappuccino é coisa de gayzinho), ao me imaginar levantando da cadeira, botando as mãos nas cinturas e revelando: “Silva, EU sou um gayzinho!!!”, cena esta que seria merecedora de aplausos até mesmo de meu amigo Marcos Farto.

Contive tal tresloucado ímpeto, mas logo não era a bandeira do arco-íris que tremulava dentro de mim, mas sim minha infalível carga genética (como diz Tia Veríssima, eu e minha irmã Material Girl somos iguaizinhos ao nosso pai: três debochados) que dizia a que vinha: “Silva, qual seu signo?”, perguntei displicentemente. “Peixes”, ele respondeu. “Ah, é por isso que a gente se dá tão bem! Eu sou câncer, câncer e peixes se dão super bem, tenho várias amigas de peixes!”, concluí entusiasticamente.

Mas nem assim o pisciano Silva pescou. Antes do fim da noite, quando tive que subir ao seu apartamento para pegar uns textos, Silva me aponta a porta do morador ao lado, atulhada de correspondências, dizendo que o cara viaja muito, que é estilista, e conclui a descrição do vizinho contando que ele é um....sim, isso mesmo.

E assim segue Silva com sua idéia fixa, sempre falando sobre os gayzinhos de sua vida, sempre fazendo uma careta e abanando a mão, como que repelindo os tais, e bem na minha frente. Quanta insensibilidade, Silva!

Já faz um tempinho que não nos falamos. Entrarei em contato, para marcarmos um café. Penso em sugerir o Vanilla Café, da rua Antonio Carlos, ou o Café Suplicy - da alameda Lorena, é claro. Vou ligar e dizer:

- Silva, vamos tomar um café?

- Vamos sim, onde?

- Num lugar cheio de gayzinho!
Imagem: gooooogle

Domingo, Agosto 23, 2009

Relacionamento, de abraço a abraço
ou No embalo, de Pearl Jam a Depeche Mode


Lay down your arms, and surrender to me, lay down your arms, and love me peacefully, use your arms for squeezing and please, I’m the one that loves you so”,
Assim cheio de atitude, dá início à batalha da conquista, o conquistador, um Pearl Jam!

How does it feel in my arms? How does it feel in my a-a-a-a-arms?.....”,
Efetuada a conquista, pergunta ao conquistado o conquistador, todo fofinho, todo Kylie Minogue, para certificar-se de seu êxito e satisfazer seu ego.

I found my home here in your arms, nowhere else on Earth I’d really rather be....”,
Responde o conquistado, desmanchando-se como Carpenters.


I was in your arms, thinking I belonged there, I figured it made sense, building me a fence, building me a home, thinking I’d be strong there, but I was a fool, playing by the rules”,
Cai em si o conquistado, desiludido, Abba, algum tempo depois.

All I ever wanted, all I ever needed is here in MY arms, words are very unnecessary, they can only do harm”,
E mais algum tempo depois, já recuperado e farto de tantas palavras ao vento (“palavras apenas, palavras pequenas, palaaavras....”), e agora ele cheio de atitude, desabafa o ex-conquistado, com os amigos em uma mesa de bar, Depeche Mode.

Quinta-feira, Agosto 06, 2009

Ensaio sobre um tipo muito louco de cegueira


Tipo, freqüentar a Blockbuster às vezes pode ser muito divertido. Explico. Estava eu na filial do Leblon do citado estabelecimento, escolhendo um filme para alugar, quando se aproximam quatro aborrescentes do sexo feminino. É claro que, por uma dupla razão, não dei a menor importância ao fato.

E indiferente continuei até chegarem a meus ouvidos frases soltas como “hoje eu não queria ver algo pra pensar”, ou “este filme, tipo, é engraçado, mas não tem um fundamento de base, sacou?”. Foi quando comecei a me interessar, sob um fundamento antropológico, por aquelas meninas, e passei a prestar atenção nelas.

“Vocês já viram este filme?”, perguntou a mais falastrona delas (a mesma do fundamento de base), enquanto mostrava às amigas uma caixa de filme. “É sobre, tipo, umas pessoas que de uma hora pra outra ficam cegas”, resumiu ela o enredo.

(Isso vai ser ótimo, pensei eu, e agucei ainda mais meus ouvidos, observando-as de soslaio por detrás de uma prateleira enquanto fingia olhar os DVDs)

“Tipo, o cara acorda e começa a ver tudo branco, tipo, ele é médico e foi contaminado por um paciente dele”, contava ela. Quando uma de suas amigas pergunta o porquê daquilo, ela esclarece: “sei lá, é uma doença muito louca, as pessoas começam a ficar cegas e enxergar tudo branco de uma hora pra outra, tipo uma epidemia”. “Aí, tipo”, continua ela, “o governo manda isolar todo mundo pra não contaminar, tipo a gripe suína, sacou?”.

(Meu Deus, o governo já está tomando medidas tão drásticas?! Engoli uma tossida)

“Então fica todo mundo nesse tipo dum hospital, e o filme fica nisso o tempo todo. Aí, tipo, eles estão todos cegos, e não enxergam mais o caminho pro banheiro, então acabam fazendo tudo pelo caminho”.

(É verdade, uma nojeira, concordei em silêncio)

Daí, tipo, elas já tinham pego um filme, que eu não consegui ver qual (se era o tal sem fundamento de base), e se dirigiam ao caixa. E eu que, tipo, não queria perder a continuação daquela sinopse sobre a asneira, digo, cegueira, tratei de pegar logo um filme pra mim e correr para o caixa, pra poder continuar ouvindo aquela saramaga da arte de contar histórias.

“Aí, tipo, nego começa a parar de dar comida pra eles, e eles começam a brigar!”, narrava ela num crescendo de emoção em seu tom de voz.

Sim, aquilo estava ficando cada vez mais emocionante. Mas aí, tipo, para minha tristeza não pude acompanhar o desfecho daquela brilhante narrativa, porque, tipo, nego foi atendido e foi embora.


Imagem: goooooogle

Quarta-feira, Julho 29, 2009

4x Espoleta

Férias de julho. Meu sobrinho Espoleta, e seu irmão mais velho Afilhado, sua mãe Material Girl e seu pai Cunhado Curitibano passaram alguns dias em minha casa carioca, a de Mãe Pu.

Mas foi mesmo o pequeno Espoleta, do baixo de seus quatro aninhos, que roubou a cena, em pelo menos quatro ocasiões:

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Estávamos eu e Espoleta em nossa tradicional brincadeira que consiste em jogá-lo para o alto (segurando-o antes de ir ao chão, obviamente). Praticamente um bungee jump para o menino, que, quando meus braços já não agüentam mais e dou a brincadeira por encerrada colocando-o no chão, sempre estica seus bracinhos e, tal como um Baby Sauro, pede: “DE NOVO!”.

Desta vez, porém, ainda em meio aos arremessos para o alto, ele faz um pedido surpreendente: “agora chega!”. E todos estranham.

Coloco o pequeno Espoleta no chão, ele levanta a calça (um pijama que minha irmã colocou no pobre do menino que devia ser para uma criança de seis anos, o que lhe rendeu até o final de suas férias o inconveniente apelido, típico de adultos chatos, de calça frouxa), “a calça estava caindo”, explica, estende o braço, e..... “DE NOVO!”.

Ah, bom!

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Após aprontar mais uma, o pai de Espoleta o coloca de castigo. Genioso como a mãe, o pequeno birrento se indigna com a situação e, sentado no sofá de sua penitência, declara: “eu vou sair daqui, vou pegar o “vevador” (elevador, em espoletês), vou embora e vocês nunca mais vão me ver!”.

Nos mostramos consternados com seu tão drástico anúncio, “puxa, mas você vai fugir mesmo?”, “não faz isso!”, até que o pequeno fujão, que parecia considerar algo durante nossa contestação, levanta uma questão bastante relevante à sua fuga: “e quem vai apertar o botão do vevador?”.

“Ué, você, você não vai fugir?”, sua família respondeu em coro.

“Mas eu não alcanço o botão do vevador!”, constatou frustrado o pequeno Espoleta, vendo seu espetacular plano de fuga se arruinar por causa de tão pequeno detalhe técnico.

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E o danado do menino não saía de perto da janela. “Sai de perto dessa janela, Espoleta!”, “você vai cair e vai se quebrar inteiro...” “...e vai morrer e nunca mais vai ver o papai e a mamãe”, advertia-o sua zelosa família, alguns com mais, outros com menos, psicologia infantil.

“Vou morrer nada! Eu como comida saudável!” (!!!!), afirmou com convicção aquele protótipo de gente da geração saúde.

Meu sobrinho já pode ser convidado a dar palestras sobre boa alimentação e imortalidade em universidades de nutrição (será que o Highlander come muita salada?).

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Generoso, Espoleta deu um biscoito a seu avô. “Obrigado”, agradeceu Papai Sabe Tudo. “Obrigada nada, é obrigaDO!”, tirou uma onda de que estava corrigindo seu avô, aquele pequeno fedelho.

“Mas eu falei obrigaDO, Espoleta!”, defendeu-se meu pai. “Falou nada! Eu não minto...”, retrucava e insistia o insolente pirralho, para arrematar em seguida: “...só nas férias!”.

Segunda-feira, Julho 13, 2009



Muito além do Jardim de Alah

Minha mãe não é rainha, mas tem seu reino particular. Este, porém, não abriga suntuosos castelos em vastos e verdes vales, em remotas e longínquas terras.

O reino de minha mãe é um território de nobres e plebeus, mundialmente famoso e democrático, localizado no aprazível balneário de São Sebastião do Rio de Janeiro, e delimitado pelo morro do Cantagalo e o Jardim de Alah.

Ipanema é o reino de minha mãe, onde ela nasceu, se criou, teve seus filhos e os criou. E de onde, há muitos anos, não o deixa. No máximo, avança umas quadras do Jardim de Alah e vai bordejar pelo Shopping Leblon ou alugar um filme na Blockbuster logo em frente.

Quando há epidemia de dengue na cidade, Mãe Pu não se alarma: "é em Jacarepaguá...". E, como já cantou o Jota Quest, "Jacarepaguá é longe pra caramba"! Pra minha mãe então, nem se fala, é em outro planeta. Gripe suína? México? Argentina? Uma galáxia a anos-luz de distância!

Eis que outro dia entreouvi este diálogo entre Mãe Pu e sua empregada:

- Nossa, como está quente! Imagina em Bangu, quando aqui está fazendo um tempo normal, lá já está quente. Quando aqui está quente, Bangu vira um forno!, sentenciava minha mãe.

A menina, mal conseguindo disfarçar a surpresa que lhe causava informação tão contundente, quis confirmar o que seus ouvidos custavam a crer:

- A senhora conhece Bangu?!

- Não, mas dizem que lá é quentíssimo.

Foto: gooooogle

Terça-feira, Julho 07, 2009


Tal filha, tal amigo da mãe

Recentemente incorporei a meu repertório uma expressão que ouvi de uma criança de apenas cinco anos, mas que de tão genial passei a utilizar naqueles momentos em que casualmente encontro algum conhecido, ou sou encontrado casualmente por algum conhecido, não importa, o que vale é que, sinceramente, tal encontro não tenha me trazido uma completa felicidade, para dizer o mínimo. Explico.

Padaria Casablanca, Morumbi, em uma certa manhã de sábado. Tomávamos o desjejum eu, minha amiga Nana e sua filha, Naninha, de cinco aninhos. Entra no local uma amiguinha de escola de Naninha, também acompanhada da mãe, que se aproxima de nossa mesa: “olha quem está aqui, filha, a Naninha!!!”, diz a adulta naquele típico tom afetado materno, incentivando a pequena, que se escondia entre suas pernas, a cumprimentar entusiasticamente sua amiguinha.

“Naninha, a Lili! Dá oi pra Lili, filha!!!”, completava minha amiga, com o mesmo histrionismo e igual objetivo, incentivando por sua vez sua filha a dar pulos de alegrias pelo encontro, enquanto esta, entre risonha e constrangida, punha a cara entre as mãos.

(Realmente ser criança pode ser um pesadelo, não se poder nem escolher com quem se quer ou não falar! Imagina se um dia estou na rua com minha mãe e passa Mr. Big, por exemplo: “olha, filho, Mr. Big, fala oi pra ele!!!”, ou ainda, “”filho, olha o Aidan, você não vai falar com ele???”. Acho que em uma situação dessas, eu responderia chutando a canela de minha mãe e sairia correndo...)

Enfim, quando ambas as mães perceberam que a interatividade entre suas filhas não renderia muito ali, acharam por bem que seria a hora de dar tchau, como nos Teletubbies, e praticamente como estes, concluíram o colóquio, para alívio das pobres crianças: “dá tchau pra Naninha, filha!”, “filha, diz tchau pra Lili!”. E assim a mãe de Lili foi procurar uma mesa, com sua filha desta vez com o rosto enfiado em seu traseiro.

Quando finalmente se viu livre daquela tentativa forçada de socialização, a pequena Naninha pergunta à sua mãe, com toda sua espontaneidade infantil: “o que ela tá fazendo aqui? Tá me seguindo?”. Genial. Quase aplaudi. E incorporei a expressão definitivamente a meu repertório.

E se eu conhecesse minha amiga há mais de cinco anos e ainda houvesse alguma probabilidade física da equação [Eu + Nana = Naninha] se aplicar, eu teria exigido naquele mesmo instante que a menina fosse submetida a um exame de DNA. Aquela criança certamente seria minha filha.