Meu nome não é Gal. E nem Gil
Por que é que sempre que estou esperando um telefonema, não um telefonema qualquer, mas aquele telefonema, que não sei se virá, o telefone sempre acaba tocando? Mas não, não me refiro à ligação que traz na tela do celular enfim o nome tão esperado (que não, não direi que é o da bola da vez), mas sim um número mesmo, e dos que nunca vi. Ao sentimento misto de animação, conquista e alívio, junto também a surpresa, “ele está ligando de outro número”. Tolinho (eu, e não o esperado interlocutor).
- Alô?..., atendo, a despeito dos eufóricos sentimentos citados acima, com desconfiada e prudente reticência na voz (ainda que com um sorrizinho ingênuo e esperançoso no olhar).
- Alô, Gil?
(O nome não importa, calhou de ser Gil da última vez, mas já me perguntaram por Luis, João, Beto...)
Silêncio.
- Vai...procurar...o Gil....no centro...do olho....do....SEU ..´!
Não, não respondi isso. Na verdade, eu disse simplesmente:
- VOCÊ LIGOU PARA A PESSOA ERRADA!
(Às vezes eu sou um fofo)
- Desc..., ia dizendo a pessoa do outro lado, em tom falsamente humilde para quem está ligando diretamente do quinto dos infernos. Mas eu não precisava terminar de ouvi-la, como sempre nessas infelizes ocasiões, já que a tecnologia ainda não chegou a um ponto que me possibilite morder a outra pessoa através do telefone, nem ao menos fulminá-la com o olhar até vê-la estrebuchando seca no chão, e eu não posso fazer nada mesmo.
Outro mistério telefônico: por que sempre que preciso encontrar meus amigos eles nunca atendem o telefone (tipo all by myself, “...I think off all the friends I’ve known, but when I dial the telephone, nobody’s home...”, mas, ora pipocas, na época em que essa música foi composta a única forma de se encontrar as pessoas era em casa, ainda não havia o celular!)?
Fui comer, então. Padaria e mina de ouro 24 horas Bela Biba, e no balcão, por duas razões: não pego fila e ainda escuto melhor a conversa dos outros.
"Aqui, meu querido!", diz o atendente entregando o pedaço de pizza a meu vizinho direito de balcão.
(“Meu querido"?, pensei. Você conhece ele? Nem conhece e já vai chamando de querido. Como as pessoas são levianas. Acham que as palavras saem impunes da boca. Semana passada me chamaram de “amor da minha vida”, e hoje eu não escuto nem um alô)
Em seguida, outro vizinho, o da esquerda, aponta para o atendente sua garrafa de vinho e diz: “amigo (as pessoas são tão íntimas, aqui!), garrafa vazia é triste, né?”.
(E o que você espera que ele diga? Que lhe dê as condolências?, pensei, enquanto tomava um gole do meu chá gelado da casa)
Dali a pouco, este mesmo vizinho olha ao redor, e exclama: “essa padaria é o maior barato!”. Por que terei eu tido a vaga impressão de ele ter dito isso após sua mirada 180º ter terminado sua trajetória em mim? Eu sou engraçado? “O maior barato”? Estou te divertindo? Garrafa vazia é triste.
Peço mais um pedaço de pizza. O atendente me entrega: “aqui, meu querido!”. Silêncio. “Moço, se eu fosse você não repetia isso, que eu posso me apaixonar e você vai ter que me fazer muito feliz em meio a muitos pedaços de pizza quatro queijos e chá gelado da casa diariamente”.
Não, é claro que não disse isso. Mas pensar nisso me fez sorrir, o que foi bom pra mim, especialmente na situação aflitiva em que me encontrava. É bom rir de mim mesmo. Ameniza. Às vezes eu sou o maior barato.
"Você viu Medos privados em lugares públicos?", perguntou o amigo do vizinho da esquerda para ele, agora ambos com a garrafa já cheia.
(Eu vi, respondi eu para mim mesmo, muito bom, Alain Resnais, divaguei, lembrando do filme, e também, com uma estranha espécie de constrangimento, de que seu título vinha perfeitamente a calhar)
“É maravilhoso, vi quatro vezes”, contou ele. Peraí, o filme é realmente excelente, mas não sei se o veria quatro vezes. O último filme que vi quatro vezes acho que foi O massacre da serra elétrica II. Olhei para o amigo de meu vizinho esquerdo. É, ele tinha cara mesmo de quem vê filmes franceses quatro vezes.
"O lance do filme é que todos os personagens tinham a resposta pra vida deles diante do nariz, mas não enxergavam". Silêncio. Em câmera lenta, pousei o talher no prato e, ainda mastigando, me virei novamente para ele, olhando-o desta vez com outros olhos. Quanta sensibilidade! Quase me enturmei com a dupla, “garrafa esvaziando é triste, né, gente?”, e já pedindo outra pro querido atendente, para tomarmos todos juntos e discutirmos as tais respostas.
Em vez disso, me levantei e saí da padaria. Rumo à locadora: “preciso rever este filme. Hoje. Quatro vezes se for preciso”.
Mas não cheguei a meu destino. No meio do caminho, o telefone tocou. E dessa vez não era pro Gil.
Foto: goooooogle



